quarta-feira, setembro 06, 2006

Quando chora uma sombra

O sol avançava em pleno apogeu

sobre um rude labirinto de ruas e ruelas

onde vultos se revelavam a cada esquina

vindos em pequenos grupos que se condensavam

agrupavam, para nunca mais pequenos serem.


A multidão tomava vida na génese de uma nova era

e o povo enclausurava-se no cantar de um coro divino

cujas vozes se cruzavam num pensamento uníssono

de um só crer, de uma só vontade.


Nesse dia o cantar dos Homens ascendeu aos céus

num tom que se sobrepôs ao pulsar desta Terra

ao chilrear dos pássaros, ao ulular das ondas,

ao gentil sopro dos ventos, às forças ancestrais

que nos haviam moldado em tempos esquecidos.


O exército vestido de branco celebrava

a paz que se erguia segura após a derradeira batalha,

segura, certa que para sempre perduraria

porque, até ao horizonte, nuvem alguma parecia existir.


Os guerreiros e guerreiras armados de ramos de oliveira

largavam puras aves no campo do desespero

eles dançavam no meio da sua loucura

absorvidos pela insanidade das palavras que pregavam

eles dançavam, dançavam porque a sua hora havia chegado.


Todas as almas celebravam…

todas as almas cantavam…

todas as almas dançavam…

todas… menos uma!


No meio daqueles infinitos corpos

uma sombra de outros tempos se erguia

firme, inerte chorava no seu âmago aquele dia.

Era a única sombra rodeada de branco todo igual

chorava, porque as sombras apenas se revelam

quando o sol entra em declínio.


Estou a pensar utilizar este como prefacio ou epilogo de um texto maior que estou a desenvolver ( O Sacrificio das Sombras). Penso que está bom, tem ja muito a ver com a estória atrás referida... bem, espero que gostem desta primeira entrada mais desenvolvida em algum tempo.